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Bioética: um desafio aos batistas Por André von Held Soares Já há muito as discussões sobre bioética deixaram os ambientes herméticos de laboratórios e passaram a integrar a pauta de assuntos que dizem respeito às questões envolvendo a vida em comunidade, a responsabilidade de decisões pessoais e o confronto com a relatividade de valores da pós-modernidade. Com isto em mente, a ABIBET, Associação Brasileira de Instituições Batistas de Ensino Teológico, realizou nos dias 22 e 23 de outubro a sua XVIII Conferência Teológica, tendo por tema “Os Desafios da Bioética à Teologia”, na cidade de Macaé, RJ, na 4 a Igreja Batista de Macaé. O evento foi marcado por um espírito de profunda reflexão, discussão e pluralidade de idéias, na busca por caminhos e posicionamentos sólidos, ao mesmo tempo em que foi permeado por um caráter investigativo, crítico e de liberdade de questionamento. A primeira palestra foi feita pelo Dr. Roberto Schuler, diretor geral do STB do Norte do Brasil, sob o título “Problemas éticos relacionados à prática do aborto e da eutanásia”, em que se apoiou no argumento básico da sacralidade da vida pra fazer uma brilhante defesa de sua tese, num discurso abrangente, que cobria diferentes pontos de vista e realidades envolvendo as referidas práticas. Na questão do aborto, Dr. Schuler lançou mão do fato de que “fetos, todos nós fomos”, para validar nossa experiência humana necessariamente biológica, mas mostrou-se plenamente tolerante às questões complicadas envolvendo, por exemplo, casos de estupro, gravidez que representa um risco para gestantes, bebês anencéfalos, etc. Ele falou de sua experiência na Suíça, país onde morou por 17 anos ao todo, num período em que observou mudanças na sociedade provocadas pela legalização tanto do aborto quanto da eutanásia, o que foi de grande valor para elucidar a questão e sua perspectiva sobre o assunto. No que diz respeito à eutanásia, o Dr. Schuler comentou o valor pedagógico do sofrimento, como um alerta da necessidade humana de Deus. Naturalmente, a palestra, bem como todo o restante da conferência, foi certamente mais interessante do que estes poucos parágrafos poderiam descrever. Para finalizar a palestra que fez com um embasamento teórico e prático, o Dr. Schuler fez um desafio ao compromisso de firmeza diante da defesa da vida e de uma espiritualidade que veja em Deus o autor da vida. A reação à exposição do Dr. Schuler foi feita na manhã seguinte à palestra, trazida pelo Dr. Reginaldo José dos Santos Junior, de Curitiba, que trouxe questões que contrastaram a natureza da abordagem do Dr. Schuler, com uma argumentação coerente com a liberdade feminina, frisando o imensurável dano causado pelo machismo à voz e expressão das mulheres durante os séculos passados, e pontuou que a defesa da liberdade feminina em abortar seja um reflexo visando a uma reparação atual. A este argumento, foi atalhada a contra-partida de que a voz da mulher, entretanto, não deve calar o aborto. O debate e as discussões, além de haverem ocorrido num tom de amizade, foram conduzidos num alto nível intelectual e de grande argumentação e coerência com princípios bíblicos. As questões levantadas e rebatidas pelos Dr. Schuler e Dr. Reginaldo produziram um saudável questionamento aos presentes, que deve ser extensivo não só a teólogos e técnicos da área de medicina e biologia, mas especialmente ao cristão moderno: qual é a voz da mulher num mundo historicamente machista; vida humana vs. vida consciente; o que nos faz humanos; deve haver direito ou um dever à vida; sofrimento pedagógico e sofrimento inútil; a falta de voz de um feto e onde reside a sacralidade da vida em situações extremas? Embora muitas das questões levantadas sejam de resposta impossível, por conta de nossas limitações, a aproximação a estas mesmas questões não foi nada tímida e mesmo os temas mais difíceis foram debatidos com enérgica vivacidade. Seguindo a programação da conferência, a ausência do Dr. Israel Belo foi bastante sentida e infelizmente teve de ser substituída por uma gravação que ele fez de sua palestra “O Projeto Genoma e a Engenharia Genética”, apresentada na conferência. A esta palestra virtual houve uma reação do psicólogo e pastor Samuel Rodrigues do Nascimento, que atualmente cursa medicina, que falou do seu ponto de vista da formação do ser humano, como um ser completamente humano, a partir do momento em que ocorre a nidação (fenômeno pelo qual se faz a fixação do ovo fecundado num ponto da mucosa uterina) no útero materno, pois o ser gerado deve necessariamente possuir uma relação com sua progenitora. Ele falou ainda da cooperação do homem com a vida, na possível interferência positiva trazida com a engenharia genética e frisou a importância das diferentes dimensões da formação humana do indivíduo, como a psicológica e a história familiar. Por fim, mas certamente de fundamental importância na contribuição para a temática da conferência, participou o Dr. Lourenço Stelio Rega, diretor da FTBSP, com a palestra “Brincando de Deus: aspectos éticos da engenharia genética e da clonagem de seres humanos”, em que deu praticamente uma aula sobre clonagem e aspectos não só éticos, conforme sua proposta, mas técnicos, e indicando a direção para a qual apontam as pesquisas tecnológicas na área. Além disso, o Dr. Lourenço levantou diversas questões intrigantes e de dilemas éticos, admitindo com muita tranqüilidade que, para muitas das questões, ainda não há sequer vestígio de resposta. Ele abordou os diferentes posicionamentos existentes em relação à origem da vida humana e explorou seus desdobramentos e conseqüências quando da adoção destes posicionamentos. Por fim, fez o apelo a uma reflexão séria e profunda acerca da matéria. Deve-se atentar para o fato de que as argumentações e palestras, embora se pautassem em princípios bem definidos dos quais se partiu para a discussão da bioética, não encerraram o assunto. Certamente a conferência da ABIBET de 2008 logrou êxito bastante superior à visibilidade que teve. Pode-se dizer que foram sugeridas provocações saudáveis em relação à manutenção da fé em Cristo que percebe a realidade e a relevância do papel que os batistas, como cristãos comprometidos, devem tomar em relação às comunidades em que estão inseridos. Seguramente, este é um evento que aguarda repercussões futuras. |
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